terça-feira, 25 de agosto de 2015

PARIS DE UMA OUTRA PRESPETIVA | O alojamento

Como alguns de vocês devem (ou não) saber, no passado mês de Julho fui 5 dias a Paris com a Diana (o blog dela aqui) e fomos visitar um primo nosso que estava lá a estudar. Esta foi, muito provavelmente, a viagem onde tive maior liberdade e onde estava basicamente por conta própria sem ter de dar grandes justificações aos meus pais.
No entanto, esta não foi a tua típica visita turística a Paris. Não me senti uma turista lá, talvez pelo facto de ter ficado numa residência universitária, ou simplesmente por ter um guia (o meu primo)que sabia quais os melhores atalhos para evitar filas, os melhores recantos a visitar e os horários do metro todos na ponta da língua, a verdade é que esta minha segunda visita à capital da luz foi muito diferente da primeira. 
O primeiro fator foi logo o alojamento: o meu primo estava em Paris a fazer um estágio em bioquímica e por isso estava a morar numa residência universitária. Aquele campus estava dividido conforme as nacionalidades: assim, havia uma casa para os portugueses, outra para os japoneses, brasileiros, noruegueses, you name it.  
O problema é que cada aluno só podia albergar uma pessoa por quarto e tinha de ser maior de idade. Ora, nós éramos duas e eu tenho 17 anos, por isso, logo à partida, já tinham começado os problemas. A solução foi eu entrar clandestina e, oficialmente, só a minha prima estava lá alojada. Eu era uma espécie de imigrante ilegal a tentar atravessar a fronteira. No inicio, estava bastante incomodada com a minha situação e achava que a qualquer momento iria ser descoberta, mas à medida que o tempo passou comecei a divertir me ligeiramente com o facto de termos de fazer uma cena de teatro de cada vez que passávamos pelo segurança. 
"Resolvido" o problema da ilegalidade, enfrentámos depois o dilema de onde dormir? Como, supostamente, só a Diana é que estava lá de visita, só nos deram um colchão (que por acaso ela minúsculo). O quarto já era pequeno, com uma cama e um colchão no chão, só sobrava mesmo espaço para alguém se deitar no meio e não ter intenções de se mexer muito. E foi o que fizemos: em 5 noites, 3 foram passadas a dormir no chão, com um cobertor por baixo para criar a ilusão de conforto. Eu e a Diana tínhamos um acordo: quem dormisse no chão tinha direito à almofada e a outra pessoa dormia no colchão e fazia almofada com toalhas e outras peças. Devo dizer que no inicio esta ideia me intimidou, mas nunca dormir no chão foi tão divertido (e bom para as minhas costas, may I add).
Enquanto estivemos lá, conhecemos alguns amigos do meu primo: cada um deles num curso diferente, com objetivos e aspirações diferentes, mas todos tinham algo em comum - o espírito de viver no estrangeiro, o de estarem conformados que para tirarem proveito de uma melhor educação tiveram que renunciar ao conforto e à facilidade de casa. A cozinha era partilhada e tinhas que guardar todos os teus utensílios no quarto (que já são pequenos): ou seja, pratos, talheres, comida, tudo, tem de ficar no quarto e só na hora de cozinhar é que se leva para a cozinha. Outra coisa que tem de se ter em atenção quando se partilha espaços comuns é o facto de termos obrigatoriamente de pensar nos outros primeiro. Ou seja, logo que acabávamos de comer tínhamos de ir lavar a loiça para desimpedir a passagem a outros. São pequenas coisas que, quando estamos em casa nem pensamos, mas que ali nos tínhamos de adaptar e rápido, caso queiramos ser aceites naquela "pequena comunidade". 
Só aquela experiência tornou a minha visita a Paris única e  diferente e fez me pensar que daqui a 5 anos talvez seja eu ali, a cozinhar ao pé de 15 desconhecidos, num pais diferente, completamente sozinha e que me tenha de adaptar a uma vida mais modesta de estudante universitário. 



© Uma colher de arroz
Maira Gall