terça-feira, 31 de março de 2015

Grab your popcorn! - "Still Alice"

Boas, para o filme desta semana escolhi aquele que ganhou o óscar para melhor atriz principal: "Still Alice". Como foi o filme que apresentei na minha oral de português, este post é uma especie de "adaptação" do meu discurso. Em duas palavras: breath taking.

De uma maneira muito resumida, o filme retrata a jornada de Alice Howland, desde o momento em que lhe é diagnosticada Alzheimer precoce, até ao momento em atinge uma fase avançada da doença, em que quase não consegue articular as palavras.
O problema de Alice é que ela tem apenas 50 anos e enfrenta uma alzheimer galopante, que em menos de dois anos lhe arranca toda a sua identidade.
O filme é de uma violência arrebatadora que nos deixa psicologicamente de rastos. Testemunhamos um ser humano a ser completamente despido, a ficar sem identidade, sem qualquer sentido de existência. Pior que muitas doenças físicas, são as doenças que afetam o nosso ser, enquanto individuo pensante. Por muito mal que estejamos fisicamente podemos sempre refugiarmo-nos no nosso interior, entretermo-nos com o nosso pensamento e reconfortarmo-nos com as nossas memórias.  Se nos tiram tudo isso, quem somos afinal? Se são as memórias e as experiências que fazem de nós a pessoa que somos hoje, o que acontece quando tudo isso é simplesmente arrancado do nosso cérebro? Ou, por outras palavras, quando é que realmente morremos? Quando o nosso coração para de bater, ou quando deixamos de ter noção de quem somos? O filme capta a frustração deste dilema na perfeição e chama-nos para uma discussão interior, que nos faz pensar nos limites da nossa própria existência.
Na minha opinião o filme contem alguns momentos e pormenores marcantes que dão ao filme a dimensão que ele transporta: primeiro, a ironia evidente no facto de Alice ser uma professora de linguística bem sucedida que vê as próprias palavras, que ela tanto estudou e conheceu, escaparem da sua boca quando tentava falar.
 Um segundo momento simbólico é a corrida que está muito presente no filme. Na minha interpretação metafórica, a corrida representa uma procura inalcançável de algo, que parece estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Podemos fazer uma analogia em relação ao alzheimer, porque tal como na corrida, há uma luta interna frustrante para lembrar coisas tão básicas que ao mesmo tempo nos apresentam codificadas. 
Finalmente, outro momento que não posso deixar de referir é a luta constante e a invenção de estratégias por parte de Alice para combater a doença. Um dos que mais gostei foi a utilização de um marcador amarelo que ela usava para assinalar que já tinha lido uma certa linha de um livro, e assim não lia essa linha vezes e vezes sem conta.
Devo também acrescentar que o sucesso do filme deveu-se, em grande parte, á atriz principal, Julian Moore, que, muito merecidamente ganhou o óscar de melhor atriz pela representação de Alice. Ela consegue-se adaptar as dificuldades crescentes da personagem de uma forma quase natural, digna, sem grandes cenas nem histerias. 
Apesar de ter gostado, a minha principal crítica negativa ao filme foi o facto de os personagens secundários (filhos e marido), assim como as relações entre eles e a protagonista, serem muito superficiais e pouco desenvolvidos.

Concluindo, o filme é simples, a história é simples, a encenação limita-se ao básico e o final não tem qualquer reviravolta, é apenas o retrato nu e cru do que é esta doença para o doente e para os seus familiares. Então, porque escolher este filme? Porque, apesar de não ter qualquer aparato ou adereço, ele cativa simplesmente pela história e é assim que se sabe quando um filme é realmente bom. 


© Uma colher de arroz
Maira Gall