segunda-feira, 29 de junho de 2015

HAZEL | a short story

A Hazel é um peixinho dourado e, como todos os outros peixinhos, a Hazel vive no fundo do mar. Ela tem uma vida normal de peixe: nada por aí, sai com os amigos, tenta escapar às linhas de pesca, vai à escola e até tem um part-time job no "Tuna market". A vida corre bem para a Hazel, mas ela tem um segredo... vá não é bem um segredo, mais um ritual. Sempre que ela experimenta algum sentimento intenso ela pega numa pedrinha branca e põe-na numa jarra.
Deixem ver se me consigo explicar melhor: daquela vez que o sr. Carp, um caranguejo muito rezingão, lhe disse que as suas escamas não eram brilhantes e bonitas como as das outras meninas, a Hazel sentiu-se triste e até ofendida, mas não disse nada porque não se queria chatear. Então pegou numa pedrinha branca e colocou-a numa jarra. Também houve aquela vez em que o Crucker (um peixe espada por quem ela tinha uma paixoneta) lhe mandou uma pérola do mar. Quando recebeu este presente, até saltou de felicidade mas, pobre Hazel, ela achou que o rapaz estava só a ser simpático e nunca quereria nada com ela, por isso, não fez nada sobre o assunto, limitando-se a agradecer formalmente a oferta. E mais uma vez, pôs uma pedrinha branca na jarra. Ah, quase me esquecia. Quando as Betys (um cardume popular do liceu de quem Hazel era amiga) não a convidaram para o Coral Party, ela ficou muito indignada. Porque que raio é que ela não tinha sido convidada? Oh, mas também, não vale a pena dizer nada, pensou a Hazel,cada um faz o que quer e ninguém me deve nada. E, mais uma vez, cumpriu-se o ritual.
Chegou a uma altura em que a sua jarra ficou cheia. Nem mais uma pedrinha branca cabia. E agora? O que é que ia fazer a todas aquelas pedras? A Hazel estava a entrar em pânico. Até que lhe ocorreu: "Já que tenho tantas, podia dá-las a outras pessoas, ser um bom peixinho e partilhar". Era uma boa ideia e Hazel estava feliz por ter pensado nisso sozinha.
No dia seguinte começou a distribuir as suas pedrinhas. Foi à casa do seu vizinho, o sr. Carp, aquele caranguejo rabugento, lembram-se?, e ofereceu-lhe uma. Primeiro, o velho ficou desconfiado, depois começou a ficar irritado, mas finalmente aceitou o presente. Quando perguntou a Hazel porque que é que ela tinha uma tão vasta coleção de pedrinhas, ela explicou-lhe a situação e disse que uma delas tinha a ver com um sentimento negativo que o senhor lhe tinha proporcionado. Dito isto, com o pobre caranguejo ainda incrédulo a olhar para ela, foi-se embora, deixando-lhe a pérola. Que bem que isto soube, pensou ela, foi quase como tirar um peso das costas. Se calhar, vou experimentar isto só mais uma vez. E seu dito, seu feito. Foi até à escola onde se esbarrou com o Crucker. Mas que coincidência fantástica. Disse-lhe tudo o que sentiu quando recebeu a pérola, quão lisonjeada estava e que se encontrava extremamente mal por não ter feito nada à cerca disso. Um por um, percorreu todos os "contemplados" naquela jarra.
Chegou o fim do dia e Hazel regressou a casa. Ufff, aquela jarra estava muito mais leve agora. Completamente vazia, pô-la em cima da mesa para lhe relembrar todos os dias que não devia reprimir os seus sentimentos, nem guarda-los nem fechá-los numa jarra. Devia falar sobre eles e encara-los, não pelos outros, mas por si, para que a sua vida fosse transparente e leve como aquela jarra vazia no fundo do mar.


© Uma colher de arroz
Maira Gall